“Ele é de minha inteira confiança!”

É essa a afirmação que uma menina que relata o abuso sofrido dentro de sua casa pode receber das pessoas que deveriam ser suas maiores defensoras.

Para contextualizar,

No dia 26 de julho de 2021, enquanto passava pelos poucos stories que ainda acompanho diariamente no Instagram, me deparei com uma sequência de stories do Ícaro de Carvalho (@icaro.decarvalho) em que ele falava da sua indignação ao ver um vídeo postado pelo cantor Wesley Safadão (lembra dele? O cara do Aquele 1%?) numa festa que acontecia na casa do cantor no final de semana.

No vídeo, que não tinha mais de 15 segundos de duração, os convidados da festa apareciam cantando e brincando quando, no canto da filmagem, foi possível observar um homem abraçando – sem motivo aparente – uma menina que devia ter no máximo 10 anos de idade.

No curto trecho postado, foi possível perceber o incômodo da menina ao ser abraçada sem permissão pelo tal homem e sua reação quase imediata de fugir daquele contato que invadia seu espaço de segurança e privacidade.

Ao comentar sobre o ocorrido no vídeo, o Ícaro – que é pai de duas meninas e de um menino um tanto simpático – chamou atenção pro perigo que existe dentro do ambiente que deveria ser o mais seguro na vida de uma criança: sua própria casa, seu próprio ambiente familiar.

Ele falou sobre a necessidade de os pais estarem alertas a qualquer sinal de proximidade de um adulto às suas crianças e do quanto os abusos são comuns, sendo o principal motivo dessa recorrência o fato de as pessoas não acreditarem que isso exista dentro de sua própria casa.

ISSO PODE ESTAR ACONTECENDO DENTRO DA SUA CASA!

E não parou por aí!

Minutos depois da postagem do Ícaro comentando o ocorrido, a situação ficou ainda mais angustiante quando o cantor Wesley saiu em defesa do homem que abraçou a menina, numa sequência de vídeos em que ele só fez o “favor” de comprovar aquilo que as estatísticas já alertam todos os dias.

Em seus vídeos, o cantor fez questão de afirmar que, apesar das “acusações absurdas”, o sujeito que estava sendo exposto na internet era um homem bom, de extrema confiança da família e que tudo que estava sendo dito a respeito do vídeo era um “exagero dos julgadores da internet”.

Contexto colocado, vamos à reflexão

Bem, esse post não tem a finalidade de avaliar esse caso e nem muito menos de fazer julgamentos sobre as pessoas envolvidas num corte de vídeo sem contexto. Não é isso que fazemos aqui, certo?

Mas as imagens e o posicionamento da internet como um todo nesse caso me fizeram lembrar das tantas histórias que já chegaram até mim carregadas de tanta dor, tantos traumas e tanto medo por meio de amigas, clientes e até desconhecidas que – por medo de se abrirem com suas famílias – optam por conversar com a primeira pessoa que esteja aberta a ouví-las e acolhê-las num tema tão doloroso.

Nesses 2 anos atendendo como terapeuta, mais de 100 mulheres (e homens também) escolheram compartilhar comigo suas histórias de vida, as lembranças (e dores) de suas infâncias e todas as consequências que uma infância vivida com o senso de não-proteção é capaz de gerar.

Dessas mais de 100 pessoas, mais da metade relatou ter sofrido algum tipo de abuso na infância e adolescência.

Dessas mais de 100 pessoas, com muita dor no coração e um nó enorme na garganta, eu te conto que mais da metade relatou ter sofrido algum tipo de abuso na infância e adolescência.

O tio que morou por um tempo de favor na casa dos pais, o primo mais velho que “cuidava” quando os mais velhos saiam pra algum compromisso, a babá, o avô, o amigo próximo da família que sempre estava nos churrascos e vivia dizendo que “essa menina vai dar trabalho quando crescer”.

Dos casos mais óbvios aos mais improváveis, eu me deparei com uma realidade paralela que demorou muito pra entrar na minha cabeça. Afinal de contas, assim como a grande maioria das pessoas, eu também não acreditava que isso acontecia tão perto de mim.

Um caso real…

Me lembro da primeira vez que uma pessoa se sentou na minha frente e relatou sua experiência. Lembro claramente da situação, da roupa que eu estava usando e das sensações de dor, sofrimento e angústia que o meu corpo teve a cada palavra relatada.

Era uma consulta feita via zoom. Ela era uma mulher adulta, com filhos, que tinha dificuldades em reconhecer e mostrar a sua beleza porque tinha medo de ser vista pelas outras pessoas. Ela – que vou manter o nome em sigilo – foi abusada por um parente que morava dentro da casa de seus pais.

O parente que abusava dela a ameaçava. Dizia que se ela contasse sobre o que acontecia ali para alguém, ninguém acreditaria nela. Ele a fez acreditar que a culpa de tudo aquilo era dela e ela passou a ter medo de que os seus pais descobrissem que aquilo estava acontecendo e presumissem que ela teria provocado a situação.

A situação perdurou por anos, durante toda a infância, até o dia em que, finalmente, já adolescente, ela conseguiu dar um basta e o abusador então percebeu que ela já não era mais aquela criança sobre a qual ele manteve o controle por tanto tempo.

Ela, que quando chegou até mim era uma mulher de família formada, relatou que demorou muito pra conseguir relacionar todas as suas dificuldades, bloqueios e medos com os abusos sofridos. Ela, que é adepta da busca pelo autoconhecimento, da espiritualidade e da gratidão, mesmo com o acesso a tantas ferramentas até então, não conseguia sair do ciclo de terror, culpa e dor que aqueles episódios da infância a fizeram viver por tantos anos.

Ela, que tinha por perto os pais, os irmãos e – mais tarde – o marido e os filhos, ainda se sentia sozinha, num corredor escuro, com monstros cujo alimento para se tornarem cada vez maiores era a culpa que ela insistia em carregar de algo que nunca sequer foi de sua escolha.

E sabe o que é pior?

Ela não contou a ninguém por medo de ouvir aquilo que o Cantor Wesley afirmou sobre o homem que abraçou a menina no episódio que relatei no início desse post:

“Ele é de minha extrema confiança. Um homem bom. Não teve intenção alguma de abusar da menina. Foi um caso aleatório. As pessoas enxergam maldade em tudo!”

Pois bem. Agora eu te pergunto:

Quais são as chances de um dia essa menina do episódio na casa do cantor ser abusada e ter coragem de relatar aos pais?

Eu mesma te respondo: NENHUMA!

Essa menina, por mais que eventualmente naquele momento não tenha sido abusada; por mais que aquele homem não tenha tentado abusar dela naquele instante; por mais que aquela tenha sido a primeira vez na vida dela em que ela tenha se sentido desconfortável com um homem que tem 5x o seu tamanho lhe abraçando por trás, colocando aquelas mãos grandes na alturas dos seus seios… por mais que essa não tenha sido a intenção dele:

ELA FOI CALADA!

E quais são os efeitos disso?

Ela percebe que está sozinha:
Não importa o que digam a ela a partir de então, ela passa a acreditar que o seu medo, o seu incômodo e a sua vulnerabilidade são irrelevantes em comparação com a “importância” que aquele homem tem na vida de seus tutores.

Ela então passa a acreditar que aquela luta é dela e de mais ninguém. Que ela tem que lidar com aquilo sem contar com a ajuda e a proteção de ninguém (leia-se: nem mesmo das pessoas que seriam as maiores responsáveis por sua segurança!).

Ela acredita ser CULPADA:
Veja, uma criança – por mais esperta que seja – não consegue compreender que os seus pais / tutores não tenham capacidade de discernir se um outro adulto é bom ou ruim. Ela pressupõe que se eles dizem que aquele homem é um homem BOM, quem está fazendo o juízo errado é ela. Resultado: ela conclui que a cena toda foi construída e causada por ela. Logo, ELA é a pessoa má e o homem é – como seus pais afirmam – bom e de extrema confiança.

Ela passa a se “enfeiar”:
Sua beleza passa a ser a grande causadora dos problemas, afinal de contas, o homem mau afirma com todas as letras que ela é bonita e que por isso ele a quer por perto. Somado a isso, todo mundo vive dizendo que se alguém (especialmente um homem) a nota é porque ela está se mostrando demais.

Ela ouve o tempo todo que mulheres são estupradas porque andam sozinhas na rua (“ora, então a culpa é delas também!”). Ela ouve que ser bonita aumenta as chances de os homens a desejarem. Ela ouve que a forma mais segura de se proteger é sendo INVISÍVEL ou, no vocabulário limitado de uma adolescente, o melhor jeito de não atrair esses monstros é “sendo feia”.

Ela então deixa de usar as roupas que tanto gostava e passa a usar as roupas largas que a fazem parecer menos feminina. Ela ignora completamente a possibilidade de alguém a elogiar pela sua beleza sem que queira, na verdade, aproveitar-se sexualmente.

Ela tem nojo de qualquer imagem que a lembre do abusador:
Homens se tornam monstros. Qualquer atitude, por mais genuína e carinhosa que seja, é vista por ela como um abuso, um atentado ou – em casos ainda mais graves – como uma ordem a ser atendida.

Ou ela os enxerga como monstros que a dominam e, portanto, sujeita-se a toda e qualquer ordem, abuso ou desejo do sexo masculino. Afinal de contas, ela entende que todos, assim como aquele primeiro abusador, são homens bons aos quais ela deve obediência, submissão e silêncio.

Ou ela os enxerga como monstros contra os quais ela precisa lutar e se vingar. Então ela passa a odiá-los. Ela não confia em qualquer pessoa do sexo masculino. Na verdade, a depender da profundidade da ferida causada e de quem a negou acolhimento na infância, ela deixa de confiar em qualquer pessoa. Especialmente se foi a sua mãe a se omitir no primeiro abuso, ela deixa de acreditar que mulheres sejam capazes de acolher outras mulheres. Ela passa a entender que sua vida é basicamente voltada à sobrevivência num mundo de inimigos que só querem o seu mal. Ela se torna alguém que não consegue confiar em pessoa alguma. Ela sente que todos estão a atacando, a perseguindo.

Por fim, ela pode se anestesiar.
Numa tentativa insana de amenizar sua dor, ela finge não senti-la. Ela acostuma com a ideia de que a sua dor não é importante o suficiente para os outros e, internamente, questiona: “se não importa, pra quê mostrar?”. Ela silencia suas emoções. Finge (ou acredita) não sentir raiva, medo, tristeza. Ela – na tentativa de provar a si mesma que sua dor é irrelevante – passa a agir como se dor alguma sentisse.

É quase como se você estivesse de frente para um zumbi.
Nada é capaz de fazê-la se acolher. Ela não aceita o acolhimento, afinal de contas, ela nunca o teve e não conhece o sentimento de tê-lo. Ela não acolhe a ela mesma, não acolhe ao outro, não acolhe a ninguém. Vive num paralelo entre a dor que de tão profunda já não é mais sentida e a anestesia que de tão intensa chega a doer na alma.

A criança que é calada diante de um abuso passa a abusar de si mesma pro resto dos seus dias. Acredita que a culpa por ter sofrido o que sofreu é toda sua. Assume que todo e qualquer sofrimento que venha a enfrentar é uma consequência merecida do que ela causou a si mesma.

E por mais que seja forte e pesado demais pensar nisso: há mais meninas abusadas e caladas do que a sua consciência é capaz de aferir.

Proteja suas crianças. Ouça o que elas tem a te dizer e, principalmente, ouça aquilo que elas não te dizem mas gritam com os olhos, com o silêncio e com o corpo.

Elas precisam de proteção!

Com amor,
Paula Boschi
Tranquilize

Publicado por:Tranquilize

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