Era março de 2018. Chegamos em San Diego com 3 malas e 1 prancha de surf. Em 1 mês já tínhamos acumulado coisas! Apetrechos “essenciais” de cozinha, lençois, uma fruteira (???), um cesto para colocar a roupa suja. Nossa primeira casa foi um studio mobiliado e mesmo assim acumulamos tudo isso:

Um mês e meio depois de morar ali, mudamos para o apartamento que foi nossa casa nos 3 anos seguintes. O apê tinha uma sala grande e a mentalidade em que fomos criados nos afrontava dizendo que não era possível ter uma sala e não ter um sofá, uma TV e… sei lá.. talvez uma mesa de centro também!

E foi nessa necessidade de mobiliar a casa nova que encontramos nosso primeiro sofá. Ele estava num beco atrás do nosso prédio, com uma plaquinha que dizia “FOR FREE”. Não pensamos duas vezes e colocamos ele pra dentro de casa, afinal de contas… “quem é doido de perder a oportunidade de pegar um sofá de graça? Um sofá é essencial, certo?”.

Meses se passaram e aquele sofá que tinha sido motivo de extrema alegria passou a incomodar. Ele era muito escuro, tinha uma cara de antigo. Pronto! Estabelecido o novo desejo: queríamos um outro sofá.

Começamos as buscas e encontramos um sofá num aplicativo de coisas usadas e adivinha: ele também era FREE! Sim! De graça um sofá novinho em folha! O anúncio dizia que era de um casal que tinha acabado de mudar de apartamento e acabou comprando outro. “UAU! Nosso dia de sorte!” (e mais um sofá descartado por alguém que preferiu comprar um novo ao invés de usar o que já tinha).

Depois disso também encontramos um tapete novinho em folha, uma cômoda, uma máquina de espresso… E a casa foi se construindo com coisas que – em teoria – nos fariam cada dia mais felizes.

Mobiliamos a casa quase toda com coisas que sequer precisamos gastar dinheiro para ter. E sempre parecia que precisava de algo mais pra ficar melhor.

Três anos depois: as fotos da nossa casa atual.

Sem sofá, sem estante, sem televisão… a sala mais legal que já tivemos até hoje!

No lugar do sofá, almofadas postas no chão. No lugar do tapete enorme que tinhamos na outra sala, um tapete feito de fibra de bambu, sustentável, que também serve de toalha de praia (porque era essa a verdadeira finalidade dele). No lugar da estante e da TV, nada! Porque nem tudo que você teve um dia precisa ser substituído por outra coisa.


E o que eu quero dizer com isso?

Que a sua felicidade não está nas coisas que você tem e, muito menos, nas coisas que você quer ter.

Somos levados a acreditar que seremos um pouco mais felizes quando tivermos aquela casa, aquele sofá, aquele carro, aquele tênis, aquele celular.

Foto por Andrea Piacquadio em Pexels.com

A propaganda é sempre a mesma: uma pessoa triste, frustrada e insatisfeita com o que tem. Até que ela compra seu iphone novo, seu computador novo, seu carro novo, sua casa nova… e passa a ser mais feliz, mais amada e mais valorizada.

Uma intensa manipulação para que você acredite que precisa das coisas que ainda não tem para que sua vida fique melhor. Não importa o que você tenha, as experiências que você tenha vivido, sempre haverá algo que você ainda deseja ter.

Percebe que é assim que nos vendem tantos sonhos? Percebe quantas coisas você sonha em ter porque te disseram que você será mais feliz se tiver aquilo?

Eu e o Rodolfo saímos de uma realidade em que os armários da cozinha tinham jogos de 12 pratos fundos e 12 rasos. Compramos um apartamento no Brasil que tinha mais quartos do que pessoas (era um apartamento de 3 quartos para 2 pessoas!). Tínhamos uma TV no quarto que foi ligada 2x em 1 ano, mas que se todo mundo tinha nós tínhamos também, né? Tínhamos mais relógios do que braços para usar, mais óculos do que nossos olhos eram capazes de sustentar, mais taças do que o número de pessoas que nossa casa podia comportar.

Quando chegamos na California nos iludimos afirmando que estávamos livres disso tudo. Gritávamos aos sete ventos que agora pensávamos diferente e que a necessidade de ter coisas pra cumprir as tabelas impostas pela tal sociedade já não fazia mais parte de nós.

Ledo engano!

Não demorou muito pra voltarmos a ter o que não precisávamos, só que agora travestidos da ignorância de quem não enxerga o motivo de suas escolhas. Confundimos – como muitos – o minimalismo com a economia. Nos orgulhávamos de não gastar o dinheiro e mesmo assim ter as coisas. Dizíamos orgulhosos que gastar menos era o que importava.

Nos esquecemos de perceber que estávamos cometendo o mesmo erro: ter para ser!

É evidente que não chegamos nem perto de ter a quantidade de coisas que tínhamos no Brasil. É claro que nesses três anos adquirimos alguma consciência da importância de ser mais do que ter. Mas ainda assim estávamos nos iludindo!

As coisas ainda nos possuíam mais do que nós poderíamos imaginar.

Ainda tínhamos mais do que precisávamos, ainda que comprando menos, gastando menos e acumulando menos; Vez ou outra ainda depositamos nas coisas que “podemos conquistar” uma dose de esperança de que seremos mais felizes quando as tivermos; Ainda nos sentimos frustrados por não ter as coisas que queremos ou de perder algo que temos.

O ponto é:

Não estou aqui pra te dizer que querer as coisas te faz uma pessoa ruim.
Não estou aqui pra te julgar porque você deseja conquistar coisas que você nunca teve.
Não quero jamais te dizer que a felicidade está necessariamente vinculada com ter menos do que você deseja e pode ter.

Ter coisas é bom! Conquistar o poder de compra, saber que você construiu uma realidade em que pode ter as coisas que sempre sonhou, poder comprar algo sem ter que se preocupar com o preço…Tudo isso é gostoso SIM e não vamos negar isso porque de hipocrisia nós já estamos bem cansados, né?

O ponto é a CONSCIÊNCIA!

É conseguir se manter vigilante de que as coisas não podem te possuir e nem te fazer feliz.

Toda vez que você se consola por um dia ruim comprando uma nova peça de roupa, você deposita sua felicidade naquela blusinha.

Toda vez que você compra mais um brinquedo pro seu filho para mostrar o quanto ele é amado, você delega o seu poder de amar para aquele brinquedo.

Toda vez que você compra algo que não precisa só porque todo mundo tem, você atribui a sua relevância no mundo a um objeto e não à sua essência.

Toda vez que você coloca o seu suado dinheiro num objeto sob alegação de que “você trabalha pra isso”, você reduz todo o valor do seu trabalho a um item que amanhã já não agregará nenhum valor à sua vida.

Você pode ter o que quiser, mas o que você quer não pode ter o poder de te possuir.

Construir uma vida baseada no objetivo de TER MAIS é um buraco negro que nunca acaba.

Os seus sonhos mudam, os seus desejos de ontem não são os mesmos de amanhã. As coisas que você compra até te geram uma certa alegria, mas ela dura segundos e logo você se acostuma com aquela conquista e passa a desejar algo mais.

Lembram que eu comentei do sofá? Pois bem. É isso que acontece em 100% das vezes:

Você conquista algo; Esse algo te gera um curto período de satisfação; Em seguida você se acostuma em ter aquilo e passa a querer algo mais. A alegria de ter aquilo logo perde o posto pra vontade de ter outro daquilo.

O celular novo deixa de ser novo no dia seguinte porque você se acostuma e se adequa às novas funcionalidades. O carro novo deixa de ser novo porque você logo passa a observar o que o outro carro tem que o seu não tem. A sua casa nova logo perde o cheiro de nova porque agora ela já precisa da primeira faxina.

O ser humano é o ser vivo mais adaptável que existe e isso pode ser uma dádiva ou uma penitência.

Você se adapta tão rapidamente ao que conquista que o tesão pelo que foi conquistado logo se perde no desejo de conquistar de novo.

Meu recado pra você hoje:

Tenha tudo que você quer, mas queira apenas o que você precisa.

Saber distinguir o que é essencial te coloca no caminho da vida sem amarras, sem pesos pra carregar e sem complicações.

Uma pessoa que vive uma vida lotada de coisas pra cuidar, pra limpar e pra administrar, tende a não ter tempo para VIVER. Aquele armário de coisas que você nunca usa, aquele depósito a mais que você mantém, aquelas roupas que você já não usa há mais de um ano, mas guarda pro caso de precisar… Tudo isso são pesos muito maiores do que você pode imaginar.

Uma pessoa que vive uma vida livre dessas tantas coisas, tende a conseguir viver de verdade, porque a vida não é sobre TER PARA SER. A vida é sobre SER. (ponto final).

Então, da próxima vez que você pensar em comprar algo, siga os seguintes passos:

1. Espere pelo menos 24h para comprar. A grande maioria das compras são feitas por emoção e não por necessidade. Se você der tempo para sua consciência maturar aquele desejo você também se dará tempo para avaliar se além de desejo ele é uma necessidade;

2. Questione o REAL motivo da compra! É uma compra baseada na necessidade de ter aquilo ou é uma compra com motivos obscuros? Será que você está comprando porque precisa ou pra provar algo a alguém? Quem te disse que isso é necessário? Você sentiu essa necessidade ou alguém criou essa necessidade em você?

3. Faça-se as 3 perguntas mágicas do Rodolfo:

E a regra é: você só compra se TODAS as respostas forem sim!! Se pra qualquer delas a resposta for não, não compre!

Extra: Esses questionamentos valem pra compras mas também valem pra DOAÇÕES!

O senso de escassez nos faz aceitar praticamente tudo que nos é oferecido em doação ou de graça.

Lembre-se que não é porque está disponível que precisa se tornar seu. A reflexão aqui nem é sobre “gastar” dinheiro, é sobre ACUMULAR coisas e nessas coisas incluem-se as caras, as baratas e as gratuitas também!

Publicado por:Tranquilize

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